domingo, 19 de fevereiro de 2017

VOCÊ ESTÁ CERTO DE QUE APOIARIA MESMO JAIR BOLSONARO, O DONALD TRUMP BRASILEIRO, OU A VOLTA DO REGIME MILITAR?


Primeiro, governo de Jair Bolsonaro seria uma coisa, regime militar,  outra.  O próprio deputado parece tentar confundir a cabeça dos menos politizados no sentido de fazê-los crer que as duas hipóteses são algo único, mas é mentira: mesmo que Bolsonaro concorra e vença as eleições de 2018, e nomeie somente militares para todo o seu suposto  ministério e demais escalões do governo, ainda assim não teremos um governo militar, porque o presidente neste caso estaria obrigado (pelo menos de algum modo) a respeitar a Constituição e instituições como o Legislativo e o Judiciário.  Demais os governos militares constituíram-se a partir de golpes e práticas de força e violência, não de eleições democráticas, como seria o caso se Bolsonaro for realmente eleito.  Acho que tudo pode acontecer, inclusive ele ganhar, já que a crise ético-política do Brasil pode descambar num "moralizador" e "defensor da moral e bons costumes", que é o perfil que o congressista apresenta na sua inconsistência e falta de qualquer projeto sério para o Brasil.   Afinal, ele é a versão nacional de Donald Trump.
Agora, se apesar de a suposta vitória trazer apenas um arremedo de militarismo, os que propalam aos quatro cantos do Brasil que votariam nele deveriam se lembrar de que o deputado votou a favor da PEC da Morte http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/pec-241-aprovada-em-1o-turno-como-votaram-os-deputados , que congela os gastos do governo por vinte anos e aumenta o número de mortos nas filas dos hospitais, agravam a falta de vaga nas escolas públicas, torna os bairros e cidades ainda mais precários em matéria de saneamento básico, finda de uma vez por todas  com o hoje pífio combate às endemias como dengue, zika e chikungunya,  além de estimular o crescimento vertigionoso da mortal febre-amarela.  Isto mostra que o nosso "redentor" tem uma visão social e econômica muito parecida com a de Michel Temer e os grupos políticos e econômicos que o apoiam.  
Agora, quanto àqueles que defendem um golpe militar na plenitude da expressão, devo dizer:  entre estes, os jovens só o defendem por não terem vivido a época, os velhos, porque são militares ou foram de alguma forma beneficiários do regime, hoje exibindo em público suas bandeiras saudosistas.
Politizei-me tarde, a três anos do fim do ciclo dos generais, mas pesquisei de forma não desprezível sobre o período.  Se a minha memória guarda a tediosa constância da chatice e do tédio das bandas militares tocando os hinos pátrios e da obrigatoriedade de ouvi-los e cantá-los nas escolas, o que é mesmo terrível são os relatos de atrocidades cometidos pelos colaboradores e agentes dos governos exercidos pelas forças armadas.
Todos já devem ao menos ter ouvido falar do caso do Jornalista Waldmir Herzog, enforcado numa cela do regime militar, num homicídio que as autoridades quiseram passar à opinião pública como suicídio.  Há além dele um homem de imprensa que foi menos infeliz , chamado Álvaro Caldas, autor de "TIRANDO O CAPUZ"  http://www.ccmj.org.br/perfil/%C3%81lvaro-caldas/149 , que revelou que, preso pelo DOI-CODI  e submetido a sessões de tortura, num dado momento teve a arma de seu torturador apontada para a cabeça, enquanto aquele dizia que ia matá-lo.  "Neste momento", contou Caldas, "senti uma alívio imenso, e respondi:  mata...".   O jornalista e escritor ainda revelou que foi submetido a torturas tão insuportáveis, que cedeu às pressões para dizer o nome de quem o escondera das autoridades em seu período de foragido.
Logo ao fim do regime militar, a extinta revista "AFINAL" lançou uma edição especial com o título "PÁGINA INFELIZ  DA NOSSA HISTÓRIA", em que relatava inúmeros casos de mortes, ciladas e torturas nos porões da ditadura.   Os carrascos faziam coisas horrendas com suas vítimas, em muitas das vezes sabendo de toda a participação delas na guerrilha e de tudo o que estas sabiam e, após a sessão de martírio, se constatassem em seus registros alguma mentira ou omissão, reiniciavam todo o processo de castigo físico, levando muitos dos presos à morte.
Há uma versão de que o líder do grupo guerrilheiro que sequestrou o embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, foi morto a pontapés por  militares http://extra.globo.com/noticias/brasil/documento-do-exercito-mostra-que-lider-do-sequestro-do-embaixador-dos-eua-no-brasil-ha-40-anos-morreu-dentro-de-um-quartel-325367.html   .  
Ainda na mencionada edição da "AFINAL", muitos presos eram mortos nos porões e depois colocados nas estradas, e a versão oficial era de terem morrido atropelados em fuga.  Depois de achar que tantos atropelamentos provocariam suspeitas,  os militares passaram a divulgar que os assassinados haviam fugido, acontecendo até o caso clássico de um recluso que recebera, em plena cela, um exemplar de jornal noticiando que este "escapara".  Por último as pessoas simplesmente desapareciam.
Aliás, mais um motivo que há para não se votar em Bolsonaro é que o deputado  não só não defende interesses senão de militares, como também homenageou na votação do impedimento de Dilma na Câmara o oficial Carlos Alberto Brilhante Ustra, pelo fato de o falecido ex-militar havê-la torturado.  Isto mostra que o futuro candidato é absolutametne favorável à prática da tortura.
No tempo do regime militar, se você tivesse uma pendenga com um sargento, que baixasse a cabeça e cuidasse de pedir-lhe milhões de perdões, pois o pessoal da caserna estava acima do bem e do mal, acima da lei e da justiça.  Mais: se um vizinho não gostasse de você e resolvesse inventar que você era comunista, guerrilheiro ou simpatizante, você era preso, torturado e dificilmente sairia vivo daquela.
Poderia passar linhas e mais linhas relatando uma infinidade de coisas lidas, como a execução de Carlos Lamarca, semimorto de fome e sede no sertão da Bahia, e uma série de hiostórias escabrosas, mas aqui o meu objetivo é que as pessoas se chamem à responsabilidade e abortem essa coisa de ficarem disseminando a ideia de dar volto a Jair Bosonaro ou respaldo a um hipotético golpe militar.  Ficam por aí dizendo que as forças armadas já estão de prontidão, mas isto é uma deslavada mentira: convocados pelos americanos nos anos 1960 e 1970, entraram em cena para afastar qualquer possibilidade de o comunismo se expandir pela América Latina.  Hoje não há mais o que chamavam "ameaça comunista", e o pensamento socialista, além de ser utópico, caiu em absoluto descrédito com as ascenções de Lula, Evo Moralez, Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Dilma, Cristina Kirchner... em outras palavras, não há felizmente clima para intervenções militares, e os membros de hoje das forças armadas não têm nenhum interesse em interferir no cenário político, preferindo ficar em paz nos quartéis.   Clamar por sua volta é um ato de irresponsabilidade que só serve para tumultuar ainda mais a situação que agora vive o país.

Barão da Mata

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